Comboio.
S.João -> Paço d'Arcos.
. Um jovem casal estrangeiro. O rapaz é bonito, tem um piercing na orelha esquerda. Ela olha pela janela e vai apontando com o dedo e falando entusiasticamente com ele. Portugal tem zonas bonitas? Eles estão a gostar da viagem. Que futuro terão estes dois jovens?..
. Duas irmãs pretas que na estação compraram um bilhete e meio. A mais velha: "era um bilhete mais um bilhete meio. Um bilhete e meio. É um bilhete de Oeiras para o Cais do Sodré e mais um meio de Oeiras para o Cais do Sodré". Seria tão simples: "por favor, são dois bilhetes Oeiras - Cais do Sodré, um inteiro e o outro meio"; ou ainda: "um bilhete e meio de Oeiras ao Cais do Sodré, sff". Agora, no comboio, a mais velha (do lado da janela) ouve música nos headphones pelo tlm e olha para ele de vez em quando talvez porque espera uma msg. A mais nova brinca com um daqueles brinquedos de alta tecnologia do tipo gameboy (acho que é aquele jogo em que temos que cuidar e domesticar um cão.. a minha prima tem um.. é capaz de ser.. sim, tem todo o aspecto disso).
. A rapariga, perdão, mulher moderna que lê uma revista. Um revista igualmente moderna. Uma Time Out ou uma Psicologia Actual. Bem vestida. Ou super fashion bem vestida. Bonita. Ou a bonita da beleza moderna.
. O homem-do-gameboy-mala-bombista. Entra no comboio com uma certa agitação. Senta-se também agitado e com alguma agitação permance. Agitado e agitação em todo o lado. Outra raça. Talibã. Preconceito. Mesmo no banco em frente ao meu (na linha de Cascais os bancos e consequentemente as pessoas não estão viradas umas para as outras) começa a abrir uma mala - daquelas que aparentam o "tipo reunião" mas são antes do "tipo bomba" - e eu faço todo o filme: homem estranho-bomba - ameaça de explosão - alguém tenta persuadi-lo - mas porque não a detonou ainda? - espera pelo Cais do Sodré onde há muito mais gente - eu sou a pessoa mais próxima - serei partículas mínimas no meio de pó e destroços - uma coisa qualquer cor-de-rosa que uma vez vi explicarem na anatomia de grey - pára de pensar merda Catarina - tens uma imaginação do caraças e os teus filmes disparam ao mínimo estímulo. De repente, ouço uns barulhinhos engraçados e irritantes ao mesmo tempo. Ele está a jogar gameboy. Toda aquela movimentação dentro da "mala do tipo bomba" era para sacar do brinquedo. Mas (há sempre um Mas), ele continua nervoso e olha para toda a gente. Agora já não me parece um possível bombista mas um estranho-nervoso-possível maluco. Está a falar sozinho. Confirma-se: é estranho-nervoso-possível maluco. Espera, então também eu e mais meio mundo o é. O filme já vai longe e ele parece desmaiar. Inclina a cabeça para baixo duma maneira tonta. Já não se ouve o gameboy. Não há desmaio. Não acontece nada. É uma pessoa aparentemente normal.
. Mulher ao fundo que parece querer dizer-me algo com o olhar. Amo-te?. Os nossos olhares continuam a trocar-se. Mais um pouco. Agroa dorme ou descansa com a cabeça encostada no vidro.
. Uma rapariga mulata, cabelo afrostyle encaracolado que parece querer picar-se com o pica. Mas um picanço mais numa de enfrentá-lo, como se ele tivesse tido algum comportamento mau do tipo preconceituoso ou de assédio. Olha-o para enfrentá-lo. Parece que quer que ele faça alguma coisa(basta um olhar do tal preconceito ou assédio) para que ela possa enfrentá-lo. Ela está mais do que preparada para se defender. Mas, é ela que está a atacar para depois se denfender. É aquele tipo de situação em que desejamos que o outro nos faça algo "minimamente mau" (ou que assim o possamos considerar), para podermos despejar e canalizar tudo o que temos cá dentro.
. Pica com ar muito estranho, chateado e olha para mim. Acha que é um olhar de flirt e começa ele num olhar flirtuoso. No entanto, continua aborrecido com algo.
. Cigana. Uma mulher cigana. O ser mais impressionante desta viagem. Na estação: caíram as moedas no chão. Muito aflita. "um bilhete de ida e volta, pelo amor de deus". (o comboio a chegar, rápido!). Deixa cair novamente as moedas, agora dentro do comboio. Muito exaltada, aflita por meio cêntimo representar a vida. Vai junto à janela. Chora. Desespero. Passa-me pela cabeça que vai a Lisboa para reconhecer o corpo de um familiar. Não, é um choro de mágoa e tristeza profundas, dor e desespero (provavelmente da vida). Observo cada ruga da sua cara e o seu olhar.
Não quero sair do comboio. Que vida! que fotografia e imensidão humana que está ali presente naquele compartimento do comboio.
E as pessoas que não mencionei?
E as outras carruagens?
Tenho que sair.
Saio.
Fico prostrada a olhar para eles - sim, conheço-os - enquanto se vão embora. Digo um adeus para mim. Apetece-me acenar como se de facto tivessemos trocado informação sobre as nossas vidas e fossemos fiéis conhecedores da pessoa de cada um.
E agora? Não há mais vida para ver e observar.
Não, há sim.
. Um mendigo/um bêbedo, sentado na estação. Cabisbaixo com os cotovelos apoiados nos joelhos. A garrafa de vinho tinto em pé, vazia ao lado. Parece que lhe faz companhia como se dum ser humano se tratasse.
. E mais à frente,..
Enfim, a vida continua..